Acabei de terminar o quinto capítulo do livro 1984, de George Orwell, com um incômodo na garganta. É proibido pensar e vai além, é crime!
É constatado crime quando a reação no rosto da pessoa não é o esperado, ou ainda não condizente à "normalidade" da ocasião - crimerrosto. Estou lendo a edição exclusiva da Amazon, pois estava me promoção para o kindle uns dias atrás e por isso vou escrever tudo em português com a Novilíngua adaptada para o português mesmo.
Para o Ingsoc (socialismo inglês na obra), o bom é o que é ultra simplificado. A exaltação à simplificação e à destruição de uma língua inteira que vai mudar o pensamento de todos. Essa é a Novilíngua, uma língua que é inimiga dos sinônimos, antônimos, adjetivos e nuances nas expressões.
A língua realmente muda nossa forma de pensar e ver a realidade. Existem línguas super eficazes, como o alemão, extremamente lógicas o que reflete a forma de pensar e levar a vida dos nativo-falantes. Já o português brasileiro é uma língua passional, cheia de nuances, regras escritas, porém muita permissibilidade quando falada. Língua rica em vocabulário, gírias, sons e melodias. Palavras que assumem conotações diferentes com uma rapidez ímpar. Língua que de tão diversificada e mutante oferece desafio real aos próprios nativo-falantes, demonstrando como somos movidos pelo coração, pelas paixões, sentimentos e não temos o maior apreço do mundo pela lógica como os alemães.
Expurgar, destruir, aniquilar e enxugar a língua já vem sendo feito no mundo, e nem falo isso com um pedantismo pseudointelectual, mas como uma pessoa que está acompanhando as dificuldades recorrentes com a linguagem dentro e fora da sala de aula, portanto por adultos também não só adolescentes. A comunicação está cada vez mais complicada pelo simples fato de as pessoas não considerarem muito a forma como utilizar a própria língua.
Como explicar ideias e conceitos quando falta vocabulário? Quando se enfrenta uma aula de língua estrangeira é muito comum dúvidas de vocabulário, afinal a língua alvo não é aquela que falamos desde a infância, mas e quando ao traduzir o termo ou conceito, este não é entendido nem na língua materna?
Por vezes, aqueles bilíngues ou poliglotas acabam expressando algum conceito ou ideia através de uma língua que não a materna, isso porque é comum depois de certo nível de fluência o cérebro julgar aquela palavra ou expressão mais adequados e com o sentido mais verdadeiro - vide o projeto de dicionário de intraduzíveis. Quando alguém opta por um termo em inglês, alemão ou francês geralmente é para poupar tempo e ser mais específico. Melhor que explicar de maneira extensa na língua materna.
Mas justamente considerando que as palavras têm nuances e pesos diferentes em relação àquilo que desejamos comunicar é que pensar em destruir tudo isso é algo impactante e criminoso. A ideia no livro é simplificar o pensamento através da simplificação da língua. Brilhante e assustador! O objetivo é forçar ver a beleza em algo que estreita as ideias e gerar repulsa em tornar qualquer coisa em conceitos mais profundos.
Analisar como o uso das palavras interfere diretamente na forma do pensar (e do governar como mostrado no livro) é um debate que deveria estar para fora da sala de aula e dos livros. Análise do discurso e políticas linguísticas deveriam ser tratadas de maneira tão aberta de maneira que as pessoas pudessem ter a oportunidade de ver as manipulações diárias (em casa, no trabalho, no governo) e pudessem pensar melhor em como escolher o que de fato é melhor para a própria vida. A análise da linguagem (que não a morfossintática) é restrita a uma parcela da sociedade intelectual que não consegue fazer muita coisa a respeito, pois não tem voz.
Como é possível ajudar as pessoas a raciocinar em cima de jogos de palavras e símbolos? Como é possível ensinar ver as intenções através da escolha dos vocábulos?
Talvez o crime pensar já exista e só não saiu totalmente do armário ainda. Não seguir o grupo é como se fosse crime. Pensar diferente, questionar... Qual a real necessidade de seguir cegamente uma autoridade? Qual a real necessidade de ter alguém nos dizendo o que fazer o tempo todo?
Temos líderes desempenhando diversos papéis na sociedade - no trabalho, no condomínio, na cidade, no estado, no país, na religião... como saber se são do tipo que acha crime pensar?

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